Entrevista com Paulo Narciso - CBN Grandes Lagos
No programa publicado em 7 de março de 2026, conversamos com Paulo Narciso, especialista em comércio exterior e diretor da Caribbean Express, sobre os impactos das tensões geopolíticas nas relações comerciais do Brasil.
Entrevista Transcrita
Paulo Narciso: Bom dia, Samilo. Graças a Deus na paz. Melhor agora com essa refrescada que deu, né? E estamos aí na luta com guerra, com tarifaço, vivendo e lá vão se 18 anos. Realmente é um marco bom.
Samilo Lopes: Nem eu posso dizer que meus cabelos continuam os mesmos.
Paulo Narciso: Seus cabelos não são os mesmos. Já foram.
Samilo Lopes: Paulo, você tocou nesse assunto e é justamente essa pauta que a gente vai falar hoje, a respeito das nossas relações de comércio exterior, balança comercial e o impacto que esse desenrolar das guerras já vem tendo ao longo do tempo. Acho que desde a guerra entre Rússia e Ucrânia a gente já começa a sentir isso fortemente, mas agora com essa escalada recente envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, com ameaças de fechar estreitos, carga que vai e carga que não vem… Me conta um pouco como está esse panorama.
Paulo Narciso: Veja, para o Brasil, principalmente para o exportador, isso tem um impacto grande. Para o importador também tem, mas é menor, porque ele importa se tiver condição. Agora o exportador precisa sobreviver, precisa escoar a mercadoria. Desde a guerra entre Rússia e Ucrânia já temos sofrido com falta de produtos, principalmente fertilizantes para o agro. E o agro é o que carrega o Brasil. Exportamos muito para o mundo inteiro.
Paulo Narciso: Se falta fertilizante, diminui a colheita. Se diminui a colheita, entra menos dólar. Isso impacta diretamente a balança comercial. Além disso tivemos o tarifaço do Trump que afetou a nossa balança. Agora houve uma mexida na Suprema Corte americana e a tarifa caiu para cerca de 10%. Com isso já começamos a retomar exportações para o mercado americano.
Paulo Narciso: Mas em contrapartida vem a guerra. A guerra diminui o fluxo de navios, aumenta o risco de ataques e aparece a sobretaxa de seguro de guerra. Mesmo quem já tinha contratado o frete precisa pagar esse adicional se a rota tiver risco. Tudo isso vira custo.
Paulo Narciso: Além disso, os fretes dispararam esta semana. Há menos oferta de navios e muitas cargas estão sendo remanejadas de um navio para outro. Isso gera atraso tanto na importação quanto na exportação. Se a guerra perdurar, o impacto em dias e custos será inevitável.
Samilo Lopes: Eu fico pensando também na relação direta entre os países. Qual é a relação comercial do Brasil com o Irã, por exemplo?
Paulo Narciso: É uma relação importante. Nós trazemos muita ureia do Irã, cerca de 40% do que utilizamos no agro. E eles compram nosso milho e sementes. Então é agro dos dois lados: de lá vem o fertilizante e daqui vai o alimento.
Paulo Narciso: Se faltar fertilizante, vai faltar milho. Se faltar milho, não tem exportação. Sem exportação não entra divisa. É um efeito em cadeia.
Samilo Lopes: E com Israel?
Paulo Narciso: De Israel nós trazemos muito equipamento eletrônico de segurança, tanto industrial quanto residencial. Mas isso não impacta tanto. Você pode postergar a compra de um equipamento. Já o fertilizante não pode esperar, porque a safra tem prazo.
Samilo Lopes: Agora olhando para os efeitos indiretos dessa guerra: Estados Unidos, China e Rússia. Como isso impacta o Brasil?
Paulo Narciso: O Brasil tem relação comercial com praticamente todos os países. O que impacta é o poderio americano tentando impedir que outros parceiros se tornem potências maiores, principalmente a China.
Paulo Narciso: Exportamos muito para a China: carne, frango, boi, miúdos e produtos do agro. E importamos da China muitos produtos prontos para revenda no mercado interno, especialmente com o crescimento do e-commerce e dos marketplaces.
Paulo Narciso: No Brasil existe uma geração inteira que importa produtos da China. Somando tudo, a relação comercial Brasil–China vai muito bem.
Paulo Narciso: Já com os Estados Unidos exportamos principalmente alimentos. Em contrapartida, eles compram produtos da nossa indústria. Durante a guerra comercial entre EUA e China na gestão anterior do Trump, o Brasil ganhou espaço no mercado americano, especialmente com móveis e cosméticos.
Paulo Narciso: O americano se adaptou ao produto brasileiro. Antes ele comprava da China. A China não compra nossos móveis nem cosméticos, mas o mercado americano é muito consumidor.
Samilo Lopes: Mas isso também pode mudar, certo?
Paulo Narciso: Pode. Amanhã pode vir outro tarifaço. Os Estados Unidos podem ameaçar retaliações a quem negocia com certos países. Se disserem que quem tem relação com a China será penalizado, sobra para nós.
Samilo Lopes: Isso força o Brasil a escolher um lado.
Paulo Narciso: Exatamente. E quem escolhe é o governo. Mas quem paga é o país.
Paulo Narciso: Vou dar um exemplo simples: com o fechamento do estreito de Ormuz, fui abastecer meu carro e o tanque ficou 40 reais mais caro de um dia para o outro. Imagine o caminhoneiro que coloca 1.200 litros de diesel para transportar o agro até o porto. Esse custo será repassado.
Samilo Lopes: Falando em números, na relação Brasil–Irã tivemos um superávit de cerca de 2,8 bilhões de dólares em 2025.
Paulo Narciso: Exatamente. Vendemos milho, soja e farelo de milho para eles. E importamos ureia. Se essa relação sofrer embargo, prejudica muito.
Samilo Lopes: E como ficam outros países envolvidos, como França, Alemanha ou Espanha?
Paulo Narciso: Alguns estão quietos, observando. O Macron, por exemplo, não se pronunciou muito. Já a Espanha fez críticas e sofreu sanções comerciais. Muitos países estão tentando agir com cautela para não sofrer retaliações.
Samilo Lopes: Existe também uma disputa econômica envolvendo petróleo.
Paulo Narciso: Sim. Quando os Estados Unidos restringem o abastecimento de petróleo para países como China ou Cuba, estão restringindo suas economias. É uma forma de guerra comercial.
Paulo Narciso: O controle do petróleo venezuelano também entra nessa lógica. Empresas americanas estão voltando a operar lá para aumentar a produção e direcionar o fornecimento.
Samilo Lopes: Isso também tem relação com o dólar como moeda global?
Paulo Narciso: Exatamente. Existe uma tentativa de manter o dólar como moeda dominante. E também de conter iniciativas como a moeda dos BRICS, que poderia permitir transações sem dólar.
Samilo Lopes: Recentemente também tivemos mudanças tributárias no Brasil.
Paulo Narciso: Sim. O governo brasileiro aumentou tarifas de importação de cerca de 12,6% para 20% em cerca de 1.200 produtos. Isso impactou cargas que já estavam em trânsito. Depois houve uma recuada em itens de tecnologia e informática.
Paulo Narciso: O problema é que o imposto entra em cascata. Aqueles 8% de aumento viram 15% ou 20% no custo final.
Samilo Lopes: Nesse cenário complexo, qual a importância de especialistas em comércio exterior?
Paulo Narciso: As empresas precisam se adaptar. O mundo sempre teve guerras. O comércio exterior não pode parar.
Paulo Narciso: Um fenômeno que estamos vendo agora é a migração de empresas brasileiras para o Paraguai. Lá a carga tributária é muito menor.
Paulo Narciso: Muitas empresas produzem no Paraguai e exportam de volta para o Brasil até 30% mais barato do que produzir aqui.
Samilo Lopes: E na nossa região de São José do Rio Preto, como está a balança comercial?
Paulo Narciso: As exportações cresceram. Comparando janeiro de 2025 com janeiro de 2026, tivemos cerca de 4,4 milhões de dólares a mais em exportações. A importação ficou praticamente estável.
Paulo Narciso: Muitos empresários abriram novos mercados, principalmente na América Latina. Agora, com a retomada das exportações para os Estados Unidos, a tendência é consolidar tanto os mercados antigos quanto os novos.
Samilo Lopes: Existe também uma diferença importante entre vender no mercado interno e exportar.
Paulo Narciso: Sim. Na exportação você exporta produto, não tributo. No mercado interno você paga IPI, PIS, Cofins e ICMS. Na exportação esses tributos são desonerados.
Paulo Narciso: Isso aumenta a competitividade. Se você vende um produto por 10 no mercado interno, pode exportar por 7 e ainda ter o mesmo ganho.
Paulo Narciso: Muitos empresários desconhecem isso e acabam colocando gordura no preço de exportação, perdendo competitividade.
Samilo Lopes: Por isso a importância de ter orientação especializada.
Paulo Narciso: Exatamente. É muita regra, muita variável.
Samilo Lopes: Paulo, obrigado pela participação.
Paulo Narciso: Eu que agradeço a gentileza.
Samilo Lopes: Para quem quiser saber mais sobre despacho aduaneiro e comércio exterior, acesse caribanexpress.com.br. Lá tem livros, dicas de exportação e um curso com 147 slides sobre comércio exterior.
Samilo Lopes: Esse foi o Bora Falar de Marketing deste sábado. Um grande abraço e até a próxima semana.
Conclusão editorial
A conversa revela como guerras, tarifas e decisões geopolíticas afetam diretamente o comércio exterior brasileiro. Fertilizantes, petróleo, fretes marítimos e políticas tributárias criam um efeito em cadeia que chega ao bolso do consumidor e às estratégias das empresas. Ao mesmo tempo, oportunidades surgem com a abertura de novos mercados e a competitividade da exportação brasileira. Em um cenário global cada vez mais instável, informação, planejamento e conhecimento técnico se tornam ativos essenciais para empresários que atuam no comércio internacional.
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